Fumaça de queimadas: quem corre mais risco e como se proteger no verão amazônico

Todo ano, entre o fim das chuvas e a volta do inverno amazônico, o céu do Acre fica encoberto por uma neblina que não é neblina. É fumaça — de queimadas locais e de focos distantes, trazidos pelo vento. O ar piora, os postos de saúde enchem e as pessoas mais frágeis sentem primeiro.

Em 2026, o governo do Acre decretou situação de emergência em todo o estado por causa da seca prolongada, pelo Decreto nº 11.733, publicado em 7 de julho, com validade de 180 dias. Em 18 de agosto, o governo federal reconheceu a emergência em 21 municípios acreanos, entre eles Tarauacá, pela Portaria nº 2.521.

Por que a fumaça faz mal

O vilão tem nome técnico: material particulado fino, o MP2,5. São partículas de até 2,5 micrômetros — cerca de trinta vezes mais finas que um fio de cabelo. Por serem tão pequenas, não ficam retidas no nariz e na garganta: elas descem e penetram fundo no sistema respiratório, chegando à corrente sanguínea.

O Ministério da Saúde alerta que a exposição prolongada agrava doenças respiratórias e cardiovasculares já existentes e aumenta atendimentos de emergência e internações. Um levantamento do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz encontrou, em cidades próximas a focos de queimadas, um aumento médio de 36% nas internações por doenças respiratórias em crianças.

Quem corre mais risco

  • crianças menores de 5 anos;
  • pessoas com mais de 60 anos;
  • gestantes;
  • quem tem doença cardíaca, respiratória (como asma e DPOC) ou problemas imunológicos.

Crianças são especialmente vulneráveis porque têm o sistema imunológico ainda em desenvolvimento e o aparelho respiratório em formação, segundo a Fiocruz.

Como se proteger

As orientações do Ministério da Saúde para períodos de fumaça intensa:

SituaçãoO que fazer
Dentro de casaManter portas e janelas fechadas nos horários de pior qualidade do ar. Se houver, usar ar-condicionado ou purificador.
LimpezaRetirar cinza e poeira com pano úmido. Não usar aspirador de pó, que joga partículas de volta no ar.
HidrataçãoAumentar a ingestão de água e líquidos, para manter as vias respiratórias hidratadas.
MáscaraUsar máscara N95, PFF2 ou P100, bem ajustada ao rosto, cobrindo nariz e boca. Máscara de pano não filtra MP2,5.
Atividade físicaEvitar exercício ao ar livre quando o ar estiver ruim; priorizar ambientes internos e protegidos da fumaça.
Recomendações do Ministério da Saúde para exposição à fumaça de incêndios florestais.

Quando procurar atendimento

A orientação oficial é buscar atendimento médico ao primeiro sinal de sintoma respiratório ou quando um quadro já existente piorar — falta de ar, chiado no peito, tosse persistente, dor no peito. Quem usa medicação de controle para asma ou problemas do coração deve manter o tratamento em dia e não esperar a crise chegar.

O que diz a lei sobre queimadas

Botar fogo em vegetação não é apenas um risco à saúde: é crime. A Lei de Crimes Ambientais (nº 9.605/1998) prevê:

  • Art. 41 — provocar incêndio em floresta ou outras formas de vegetação: reclusão de 2 a 4 anos e multa. Na forma culposa, ou seja, sem intenção, detenção de 6 meses a 1 ano e multa;
  • Art. 38 — destruir ou danificar floresta de preservação permanente: detenção de 1 a 3 anos, multa, ou ambas;
  • Art. 42 — fabricar, vender, transportar ou soltar balões que possam provocar incêndios: detenção de 1 a 3 anos ou multa.

Como denunciar

  • Linha Verde do Ibama: 0800 061 8080 — ligação gratuita, de todo o Brasil;
  • Fala.BR — formulário eletrônico da Controladoria-Geral da União, em falabr.cgu.gov.br;
  • Incêndio em curso: ligue 193, o Corpo de Bombeiros.

O Ibama reforça uma orientação de segurança: não tente combater o fogo sem treinamento e equipamento de proteção. Avise os vizinhos, leve família e animais para local seguro e evite inalar fumaça.

Onde acompanhar os focos de calor

O Programa Queimadas do Inpe publica, de graça, o número de focos detectados por satélite, com filtro por estado, município e bioma, além de comparação entre anos e download dos dados. O painel fica em data.inpe.br/queimadas.

Fontes: Ministério da Saúde (orientações sobre exposição à fumaça de incêndios florestais); Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz; Lei nº 9.605/1998; Ibama (canais de denúncia); Sema-AC (Decreto estadual nº 11.733 e Portaria federal nº 2.521); Programa Queimadas do Inpe.